! Avi Alkalay ¡: Como o WhatsApp foi usado para disseminar fake news e como combater

Todas as campanhas políticas da história lançaram mão de disseminação de boatos, propaganda enganosa, disseminação de medo, incerteza e dúvida. Essas construções da mente são, inclusive, uma das característica que nos diferenciam dos outros animais, conforme citam Yuval Harari em seu livro Sapiens e outros autores.

Mas na campanha presidencial brasileira de 2018 isso foi levado a níveis extremamente nocivos devido a junção inédita de 3 fatores:

  1. Conteúdos mais acessíveis, em forma de memes, imagens, charges, videos e também artigos. As mensagens são sutis e enviesadas, nem sempre são noticias falsas, às vezes são só piadas de mal gosto, de escárnio. Mas o objetivo é claro e sempre o mesmo: destilar escárnio, ódio e preconceito. Seus mensageiros, quando questionados quanto a ofensa contida na mensagem, frequentemente responderão que ela contém “a mais pura verdade”. O meme é facilmente produzido pelos próprios usuários em seus celulares ou por agências profissionais contratadas. O importante é capturar imediatamente a atenção de quem recebe o conteúdo. Veja alguns exemplos.
  2. Disseminação em massa do conteúdo por robôs, em grandes grupos de muito interesse naquele mensagem. Trata-se de grandes grupos de WhatsApp onde a maioria dos participantes não se conhecem pessoalmente, nunca saberão se um dos números de telefone alí é um robô de disparo de mensagens. Quando o conteúdo é inserido pelo robô, a posição política coletiva do grupo entra rapidamente em sintonia com ele, sua pitada de humor o livra de maiores questionamentos sobre sua veracidade. Um usuário mais questionador rapidamente perderia força num embate com o grupo extremista porque o massacrariam com “deixa disso”s. Depois da inserção intencional do conteúdo, começa a 2ª fase: os próprios usuários, felizes com um novo conteúdo divertido e importante, divulgam-no organicamente para seus outros grupos restritos e fechados que são da família, da escola, do trabalho e assim ele continua se propagando organicamente. A enorme maioria das pessoas acaba recebendo o conteúdo nessa segunda fase, de forma orgânica. Essa 2ª fase orgânica esconde a origem robótica e artificial da 1ª fase. A seleção inicial desses grandes grupos de WhatsApp, que têm afinidade com a mensagem que se quer transmitir, e a adição dos robôs neles, é a parte mais estratégica da campanha porque é o mecanismo para se plantar a semente. Os robôs enviam os memes somente para os grupos de interesse, nunca diretamente para pessoas avulsas, como alguns pensam.
  3. Mobilidade pervasiva. Este fator obviamente habilitou os dois anteriores. É o celular que nos chama o tempo todo e que só saberemos se é uma emergência médica de um parente ou uma bobagem qualquer depois de dar uma olhadinha.

Foi no começo de setembro que observei um aumento expressivo na disseminação de memes nos grupos da escola e da família que faço parte. É difícil saber se é puramente orgânico ou se foi estimulado por uma campanha de robôs alguns níveis antes. O conteúdo era encaminhado sempre por 3 usuários, um deles declaradamente de extrema direita e muito ativo politicamente.

O video da denuncia, que mostra o próprio Bolsonaro e a tela do WhatsApp em atualização frenética devido ao envio robótico de mensagens (que emergiu em 2 de outubro de 2018), revela os grupos de muito interesse através de seus nomes: “Direita é o Poder”, “Direita Ativa”, “Direita Agreste”, “BolsoMito”, “Direita Aprendiz”, “Parada Hétero” etc. Essa lista específica de grupos, aquela alta velocidade anormal de recebimento de mensagens nas mãos de Bolsonaro, para mim comprovam o uso consciente de robôs de envio de mensagens de campanha.

<iframe allowfullscreen=”allowfullscreen” frameborder=”0″ height=”315″ src=”https://www.youtube.com/embed/l9JmTx_khGs” width=”560″></iframe>

Como Combater Notícias Falsas no WhatsApp

Qualquer tipo de limitação ou restrição não é a solução de longo prazo, mesmo porque o aplicativo não sabe diferenciar entre receitas de bolo e memes de ódio. Criar restrições para um recairão injustamente sobre o outro.

Por outro lado, o aplicativo registra quando uma mensagem é encaminhada, pode-se ver o “Forward” ou “Encaminhado” sobre o balão. Por trás dos panos, o aplicativo guarda uma série de metadados sobre a mensagem que numa análise forense nos servidores do WhatsApp permitiriam recriar toda a trajetória da mensagem, mesmo que o conteúdo em si é criptografado em cada usuário. Em outras palavras, uma análise forense poderia quando o meme foi inicialmente publicado na rede, qual endereço de internet, se foi usado um computador ou celular, de qual marca, de que região do planeta, número de telefone e eventualmente até o usuário Facebook dele. Dados similares podem ser obtidos em grupos do Telegram.

O que falta no WhatsApp é um mecanismo para que usuários denunciem conteúdo impróprio e assim bloquear que seja encaminhado. No Facebook, funcionalidade similar já foi implementada após os problemas nas eleições do Trump. No WhatsApp, o usuário selecionaria o conteúdo ofensivo e o denunciaria. Uma vez decidido que é ofensivo/falso, o conteúdo passaria a ter um balão vermelho ou outra marca visual clara aos usuários de que ele é problemático. O aplicativo inibiria e bloquearia outras operações sobre esse conteúdo também, como encaminhamentos, salvar no rolo da câmera etc.

Mas tudo isso, só para as próximas eleições.

The post Como o WhatsApp foi usado para disseminar fake news e como combater appeared first on Avi Alkalay.


Source From: fedoraplanet.org.
Original article title: ! Avi Alkalay ¡: Como o WhatsApp foi usado para disseminar fake news e como combater.
This full article can be read at: ! Avi Alkalay ¡: Como o WhatsApp foi usado para disseminar fake news e como combater.

Advertisement


Random Article You May Like

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*
*